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Mulheres e Negócios Internacionais: produtoras levam o cinema brasileiro para o mundo

Por meio de coproduções estrangeiras, vendas de direitos e festivais internacionais, lideranças femininas do audiovisual contam com o projeto Cinema do Brasil, em parceria com a ApexBrasil, para internacionalizar o setor

Por: Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil)

O cinema é uma importante ferramenta de projeção internacional de um país, já que as obras têm o poder de representar uma nação. Por isso, a igualdade de gênero no setor audiovisual é especialmente relevante. No Brasil, felizmente, hoje essa indústria já conta com diversos exemplos de mulheres bem-sucedidas, que trabalham arduamente para levar filmes e séries brasileiras ao público internacional. Muitas delas contam com o apoio da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), por meio do projeto “Cinema do Brasil”, em parceria com o Sindicato da Indústria Audiovisual do Estado de São Paulo (SIAESP).

Apesar de ser um universo ainda majoritariamente masculino, principalmente nas posições de liderança, mulheres brasileiras, produtoras e diretoras, têm conquistado o mundo por meio de coproduções, em parceria com países estrangeiros, e de festivais internacionais, que proporcionam grande visibilidade no exterior. Essa trajetória, contudo, não é fácil. Desde a concepção do projeto até a chegada na telona de diferentes países, em diferentes idiomas, um filme passa por inúmeras fases, que envolvem altos custos.

Por isso, em 2006, a ApexBrasil passou a integrar o projeto “Cinema do Brasil”, em parceria com o SIAESP, com o objetivo de apoiar a internacionalização da indústria audiovisual brasileira. Desde então, dezenas de produtoras de cinema brasileiras beneficiaram-se de ações que visavam aproximar os profissionais nacionais a potenciais parceiros de negócios no mundo todo.

Apesar de a participação da Agência no projeto ter sido interrompido em 2019, agora, no festival de Cannes de 2023, foi marcada a retomada do apoio da ApexBrasil ao setor, com ênfase na diversidade. “Nesse novo momento do projeto setorial, queremos maximizar a presença de produtoras lideradas por mulheres, assim como de profissionais negros, indígenas, oriundos de todas as regiões do Brasil, inclusive do Norte e do Nordeste. O cinema é uma ferramenta fundamental para a projeção da imagem do nosso Brasil no exterior, então a indústria precisa refletir a realidade do nosso país”, destaca a gerente de Indústria e Serviços da Agência, Maria Paula Velloso.

Para celebrar a reconstrução da parceria e destacar a sinergia do novo projeto com o Programa Mulheres e Negócios Internacionais da ApexBrasil, destacamos o trabalho de algumas produtoras que integram o projeto “Cinema do Brasil”: a Tangerina, de Tata Amaral, a Barry Company, de Juliana Funaro, e a Manjericão, de Rafaella Costa.

Dos curtas aos longas ao redor do mundo

Tata Amaral, dona da produtora Tangerina, é de uma geração conhecida como “primavera dos curtas”, que, no final dos anos 1980 e começo dos anos 1990, ganhou muita projeção por meio dos festivais internacionais. “Os meus curtas iam muito para fora, porque os festivais são realmente uma maneira de abrir o nosso espaço. Era o que mais levava o Brasil para o mundo. Os curtas metragens eram selecionados para todos os festivais, ganhavam prêmios, tinham uma grande notoriedade e eram licenciados internacionalmente”, explica a produtora.

O primeiro longa de Tata, “Um Céu de Estrelas”, estreou no festival de Toronto em 1996 e, a partir daí, passou a ser licenciado em diversos países e a receber as taxas de exibição de festivais pelo mundo todo. A produtora explica que, naquela época, não havia um caminho claro para a internacionalização. Ela contava com a ajuda de pessoas que conheciam agentes de vendas no exterior, de maneira desestruturada.

No início dos anos 2000, o cenário já era diferente. Com o seu terceiro longa-metragem, “Antônia”, a produtora garantiu a distribuição na Europa e nos Estados Unidos. “Nos EUA, o filme foi distribuído por um selo de filmes estrangeiros que estava começando naquela época, o Red Envelope, que era do Netflix”, ela conta. O principal nesses arranjos era a garantia dos direitos sobre a obra.

Tata Amaral comemora que boa parte dos seus filmes contaram com o apoio do projeto “Cinema do Brasil”, desenvolvido em parceria com a ApexBrasil. “’Antônia’, por exemplo, foi muito beneficiado pelo projeto. O longa abriu uma mostra na Berlinale, que é o segundo festival de cinema mais importante do mundo. E o ‘Cinema do Brasil’ organizou uma festa para promover o filme, que foi muito importante”, relembra a produtora.  

Sobre o desafio de ser mulher na indústria, Tata considera que o mercado ainda está se atualizando, tanto na questão de gênero, como de raça e LGBTQIA+. “Eu nunca tive problema de liderar equipes, mas as relações comerciais, de financiamento, são muito complicadas. É um ambiente ainda muito machista. O que eu mais vi na minha carreira foram homens fazendo mais filmes do que eu. Então eu me tornei produtora para poder viabilizar o meu trabalho”, conta. Ela explica que, dada essa dinâmica, as mulheres normalmente trabalham em produções menores, responsáveis não apenas por produzir, mas também dirigir, criar, escrever e viabilizar o negócio.

De 2014 para cá, na esteira do movimento Me Too, surgiram novas organizações lideradas por mulheres do setor, como de diretoras, roteiristas e produtoras, com o intuito de reivindicar mais direitos. E os efeitos vão sendo lentamente sentidos na indústria. “As novas gerações acho que estão mudando, principalmente com maior presença das mulheres negras. Elas estão na liderança, mas também estão, como eu, na direção e se dividindo entre as diversas funções”, avalia Tata Amaral.

O caminho das coproduções

Juliana Funaro é sócia e diretora executiva da Barry Company, produtora independente brasileira situada em São Paulo. Com uma trajetória heterodoxa, ela começou no direito internacional. Em um escritório em Nova York, ela atendia a indústria fonográfica, e assim foi migrando para o entretenimento, e, em seguida, para o audiovisual. Hoje, ela já está há quase 20 anos atuando nesse mercado, com foco nas produções internacionais.

“A internacionalização sempre foi o que mais me interessou. Eu tenho 27 coproduções internacionais hoje. Sou a pessoa física que mais têm coproduções internacionais no Brasil”, celebra a executiva. Ela explica que, com a sua expertise em direito internacional, tem a vantagem de entender os detalhes dos contratos e tratados, que podem ser desafiadores para quem não tem a formação jurídica.

“Eu sempre gostei da é pluralidade de parceiros, não só pela troca criativa, mas também pela viabilização financeira, porque você consegue que todo mundo aporte investimento”, destaca Juliana. De acordo com ela, as produções conjuntas conseguem transitar melhor internacionalmente, não só pelos recursos, mas também porque contam com olhares distintos. “Todos os nossos projetos entraram em pelo menos um festival”, comemora.

Um dos trabalhos de sucesso liderados por Juliana é a série “Impuros”, em parceria com a Disney. A produção já está indo para a sexta temporada e é a segunda série mais vista na América Latina da Star+, atrás apenas de “The Walking Dead”. “É uma série que tem coprodução com o Uruguai, tem cash rebate, tem tudo. Normalmente você só vê isso em longa-metragem, mas a gente conseguiu”, ressalta.

De acordo com a produtora, 90% dos seus projetos têm coprodução internacional, uma vez que o intuito é justamente mostrar os produtos brasileiros no exterior. Atualmente, em parceria com a produtora Biônica, Juliana está trabalhando no longa “O Filho de Mil Homens”, uma adaptação da obra do Valter Hugo Mãe. O projeto já tem um coprodutor português e, agora, em Cannes, está para fechar com um francês.

Juliana conta que a parceria com a ApexBrasil foi um divisor de águas para a internacionalização do setor audiovisual brasileiro. “O ‘Cinema do Brasil’ proporcionou tal visibilidade que hoje os parceiros estrangeiros vêm atrás da gente. Isso não acontecia antes. Foi um trabalho realizado ao longo de anos, fundamental para que todos soubessem o potencial do Brasil” avalia. Ela comemora a retomada do projeto com a Agência, para que a indústria siga crescendo, após o período de estagnação.

Além de ser uma produtora exitosa no mercado internacional, Juliana também se preocupa com a igualdade de gênero no setor. “Sempre fiz questão de me posicionar e não aceitar não como resposta. Eu sou associada fundadora do +Mulheres, movimento que fundamos depois do Me Too, inspiradas pelas francesas do movimento 50/50. É uma luta não só para capacitar mulheres, mas para fazê-las acreditar no seu potencial”, constata.

De olho nos festivais

Rafaella Costa, produtora da Manjericão filmes, também é advogada de formação, e sua migração para o cinema começou há 20 anos, logo depois de terminar a faculdade e perceber que não era a carreira que almejava. “Comecei como assistente de produção, fazendo filmes publicitários, lá em 2000, e depois disso a minha vontade era mudar para entretenimento. Foi nessa época a abertura da Manjericão”, relembra.

A produtora começou prestando serviços para amigos, principalmente em curtas-metragens, e mais tarde produziu uma série para a TV Cultura. “Depois disso, a Manjericão evoluiu para trabalhar com projetos incentivados. Os dois primeiros foram curtas do prêmio Estímulo, [do estado de SP] e depois a gente evoluiu para outros projetos, com apoio de um programa da prefeitura de São Paulo”, explica.

Além de contar com apoio de fundos de apoio ao setor audiovisual, Rafaella aposta nos festivais para lançar seus filmes, que têm um viés autoral. Segundo ela, todos os projetos passam, desde a idealização, pela avaliação de parceiros estrangeiros. “Entendemos que é preciso trabalhar desde o início com parceiros internacionais, desde a ideia, participando de laboratórios internacionais, para desenvolvimento de roteiro, etc. Por meio desse movimento, podemos acessar os mercados de coprodução”, avalia.

Em Cannes, Rafaella está com o longa-metragem “O Levante”, que desde 2016 passou por circuitos internacionais, em diversos formatos, com o objetivo de ser selecionado para o festival francês. Desde a criação do projeto, o roteiro do filme foi avaliado em diferentes laboratórios internacionais, de roteiro e de montagem, e, com o retorno dos parceiros estrangeiros, foi para o mercado. “É um projeto que todo mundo sabia que estava para ser feito. Foi um trabalho bem focado para chegar até aqui”, revela a produtora.

Voltada para produções com temas universais, que possam interessar públicos do mundo todo, Rafaella desenha os projetos pensando nas oportunidades fora do Brasil. “’O Levante’, por exemplo, fala sobre gravidez indesejada e aborto ilegal no Brasil, que são temas inerentes para o mundo inteiro, inerentes ao feminino, atingem qualquer público”, ela explica.

Em relação ao papel das mulheres no mercado audiovisual, Rafaella é otimista. “Hoje em dia, tanto em termos de produção como de direção, toda a cadeia tem muito mais representatividade feminina”, comemora. De acordo com ela, o desafio de ser mulher é ainda maior quando somado ao fato de ser produtora independente e brasileira. “Passei por tudo isso para conseguir conquistar mais confiança do mercado Internacional. Dentro do Brasil acho que a gente agora já conseguiu conquistar mais espaço, mas para fora ainda é difícil. Em alguns países, a entrada muito boa, em outros nem tanto” pondera.

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